Porque cinema é mais que apenas o filme

Idas ao cinema e tudo o que acontece da fila ao escurinho da sala.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Borboletas e a falta que faz o toque humano


Eu não gostaria de acordar um dia e descobrir que estou preso. Ninguém gostaria, acho. Mas o termo preso é bem vago, imaginando as inúmeras possibilidades de prisões que podem surgir um dia roubando nossa liberdade.

Tudo começou com um livro e depois com um filme. Um filme do livro, como sempre acontece nesses casos e equações em que o escrito leva ao visto.

Acabei por todas essas operações estranhas em uma sala de cinema assistindo à história de um homem que ficou completamente paralisado, exceto por um dos seus olhos, o esquerdo. Ele estava preso, como ele mesmo descreve, em um escafandro.

Eu deveria imaginar, depois de ler as páginas possíveis apenas pelo esforço do seu único olho funcional, que acabaria chorando no ombro de um interesse amoroso enquanto assistia a cada uma das angustiantes cenas.

Jean-Dominique Bauby era jornalista e editor da Elle francesa, até um derrame tirar todos os seus movimentos e torná-lo um pouco mais que um legume, como caracterizavam algumas pessoas que souberam da sua condição logo depois do incidente.

Um derrame sem causa comprovada, o que sempre nos leva a pensar: o que impediria isso de acontecer comigo? Mais motivo para chorar copiosamente enquanto Bauby observa seus filhos negligenciados sem poder acariciar seus cabelos ou beijar seus rostos.

O filme O Escafandro e a Borboleta é um desses filmes que consegue elevar o emocional de um livro. Lendo sua versão pelas mãos – ou olho – de Bauby, você consegue claramente notar uma história do tipo "superação humana", mas o longa transporta para o mundo angustiantemente impotente do autor. A câmera estática, ângulos que imitam a posição de Bauby, lentes embaçadas quando ele começa a lacrimejar.

Bauby só suporta toda a sua prisão através das borboletas de sua vida: sua memória e sua imaginação. Assim pode adejar fora de seu escafandro e viver tudo que lhe é privado.

Uma trilha sonora impecável, com músicas que eu realmente não conheço, mas que por um momento gostaria de conhecer. De ouvir tudo de novo e poder chorar mais um pouquinho. Só que dessa vez sozinho. Acompanhado de alguém que acaricia sua mão com as pontas dos dedos, as lágrimas acabam parando tímidas nas beiras dos olhos. Um choque entre uma felicidade íntima e a tristeza de outrem tão distante.

Corta para um ônibus. "Eu gostei bastante do livro", digo. "Ele escreve muito bem. Algumas pessoas devem se sentir impelidas a ler o livro por pena, mas ele realmente escreve muito bem". Recebo em troca: "Tenho medo de ler livros que não pelos seus atributos literários".

Com certeza o livro tem grandes atributos literários. E a história, atributos fantasticamente humanos e comoventes.

Nessa noite, aproveitei o toque desse interesse amoroso enquanto pude.

domingo, 8 de junho de 2008

No more Carrie

São Paulo, cinza e fria nesses dias de junho. Uma população de solteiros que ultrapassa minha imaginação e um número ainda maior de corações partidos. Em uma cidade tão grande, mesmo com todos os avisos piscando em néon é inevitável que a maioria – ou talvez minoria – de nós se deixe levar pela possibilidade de um relacionamento sério. Mas sempre descobrimos, quase que inevitavelmente, que possibilidades morrem sendo apenas possibilidades. E nesse cenário desanimador, sem perspectivas ou prognósticos positivos, eu não pude evitar de me perguntar: Será que realmente estamos fadados a ter apenas duas escolhas? Sofrer em busca de um relacionamento ou apenas nos resignar a uma vida solitária?

Sim queridos, Sex and the City está nas grandes telas, e eu como fã inveterado do quarteto de fabulosas – não tão solteiras – amigas de Manhattan, tive de assistir o longa logo no dia de estréia, acompanhado de um amigo imparcial, que nunca acompanhara a série, para me trazer a realidade sempre que exagerasse nos meus arroubos de nostalgia.

Isso porque a série acabou há quatro anos e desde então venho satisfazendo minha vontade por mais com maratonas regulares da série, sempre me fazendo a mesma pergunta que terminou o primeiro parágrafo. Por que se você não notou, a série deveria ser chamada de Relationships and the City mais do que qualquer outra coisa, mas acho que não teria tanto apelo quanto sexo.

O filme foi sim um grande revival, mais que pecava por faltar algo. Algo que imortalizasse o filme como algo mais do que um extenso episódio – senso comum que vem sendo utilizado de forma recorrente na maior parte das críticas feitas ao longa. Li muitas matérias sobre SATC e nenhuma delas me preparou para a pontinha de decepção que senti quando o filme acabou com as meninas apenas bebendo cosmopolitans como se fosse uma merda de episódio qualquer.

Ta, tenho que admitir que quase chorei quando Carrie foi deixada ao altar e espancou Mr.Big com o buquê depois de encontrá-lo na rua tentando se desculpar. Mas de resto só isso. E sinceridade mesmo? Queria que uma das quatro morresse. Eu sentia que isso era necessário. E li muitos rumores de que algo do gênero aconteceria. E quando descobri que Charlotte ficaria grávida, tinha certeza: a princesa York morreria no parto deixando todos os fãs chocados, desolados, inchados de tanto chorar e eternizaria o filme para sempre. Mas não, olha o spoiler, isso não acontece... Nem de perto.

E quem impressiona mesmo é senhora Kim Cattrall, que não só é responsável por maioria das risadas, como também por protagonizar uma possível resposta para o meu questionamento desse texto. Ela acaba se deixando levar pelo seu relacionamento com Smith e se descuidando das suas necessidades pessoais. Ela cria uma pança de tanto comer, gente! Samantha Fucking Jones de barriguinha! Até que ela deixa o loirão gostosão para viver sua vida, mesmo que sozinha.

A possível resposta seria essa: porque viver em função de um relacionamento quando mais importante é viver em função de você. Narcisista e egoísta, talvez. Mas ninguém agüenta ser pisado muitas vezes. E é bem provável que você encontre alguém mais facilmente depois que você conseguir um equilíbrio consigo mesmo. Carência e desespero destroem nosso bom julgamento não é mesmo – e vodka também. Conversei com um desconhecido sobre isso e ele afirmou que odiou o que fizeram com Samantha, porque ela acaba sozinha quando todo mundo achou seu par! Desde quando você precisa está do lado de alguém para estar feliz? Samantha representava ali the ultimate single gal, título que sempre foi dado a Carrie, uma carente, dramática, sempre à procura de um relacionamento para se tornar completa.

Como meu amigo imparcial pode comprovar o filme não é feito apenas só para fãs. Ele por exemplo, ao contrário de mim, adorou o filme! Vai entender... E ainda continuo batendo o pé dizendo que não gosto da Jennifer Hudson que faz o papel de assistente da Carrie. Totalmente dispensável.

Para os viados e mulheres: ainda dá pra assistir um ator super gostoso “pagando pintinho” – sendo que pintinho não faz juízo ao que realmente ele paga.

Quanto a mim, o filme apenas reforçou a idéia de que estou bem sozinho e escrevendo. Metas para esse ano: me tornar uma mistura de Miranda e Samantha. Resumindo, um workaholic decidido, que sabe o que quer e não aceita desaforo de ninguém. E que também sabe aproveitar um bom sexo de vez em quando.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Senta aqui no meu divã, vai?


Se você algum dia já foi para uma cabine de cinema, com certeza sabe que esse evento é um antro de gente esnobe. Mas um esnobe com classe, narizes empinados com todo o cuidado e descrição. Pessoas de cachecol, combinações de roupas estranhas, boinas e acessórios modernos, dando beijinhos estalados e sorrisos bem abertos falando: “Acabei de voltar de Nova York”, “Tenho que sair correndo daqui para cobrir o São Paulo Fashion Week”, “O que você achou de ‘Persona’ do Bergman?”, “Ai, aquela cabine foi tãoooooo comercial” e outras coisas que só a esfera comercialmente cult de nossa cidade pode produzir.

Já participei de muitas dessas cabines, mas nunca de uma cabine para uma série de televisão que iria estrear na semana seguinte – ossos do ofício atual. Como sempre, cheguei no local, assinei a listinha de imprensa e fiquei silenciosamente sendo analisado pelos meus colegas de trabalho. O assessor responsável pela sessão disse que podia me servir de qualquer coisa da lanchonete por conta da casa. Olhei em volta e notei todos apenas segurando suas águas e alimentando seus estômagos com cigarros Calton e expressos de máquina. Eu, como não ligo para opinião desse tipo de gente... Pedi também uma água e deixei o barulho da minha fome ressoar enquanto encarava um apetitoso bolo de chocolate que poderia ser meu – por conta da casa. Ou eu fazia o esfomeado, ou fazia um networking básico. No final, nenhum dos dois aconteceu.

Isso porque a dinâmica dessas cabines é bem delineada. Você só fala com quem você conhece ou pelo nome da pessoa e do veículo que ela trabalha – sorte que não saio por aí usando crachá de mero escraviário, de outra forma nem o assessor teria conversado/ me paquerado.

A série chama-se Em tratamento. Assistimos os dois primeiros episódios que começam a passar a partir da segunda (dia 12) na HBO e mostra o dia-a-dia do psicanalista Paul e as sessões com seus mais diversos pacientes. A premissa da série – que obviamente não assistimos por completo – é que cada dia da semana corresponde a uma sessão com um de seus pacientes e na sexta é o dia do próprio Paul chorar suas pitangas com sua terapeuta Gina. Isso num estilo similar ao de 24 Horas, ou seja, Paul é o Jack Bauer da psicanálise – sem as armas, as intrigas políticas e conspirações.

Os dois primeiros episódios têm muito de sexo – mas nada de flashback para ilustrar, cambada de tarado, todos os episódios acontecem no consultório de Paul – e é impossível não dar umas risadinhas com alguns dos relatos dos dois primeiros pacientes. Laura, a de segunda, é uma mulher que se revoltou com a chantagem do namorado para que os dois se casassem logo, encontrou uma amiga, se produziu toda e se jogou na buatchy! Mas como bebida nunca é demais e sempre é proporcional à magnitude do erro, ela acabou no banheiro com um cara com um enoooooooorme.... “Vocabulário”. Só que foi só ouvir um cara da cabine ao lado peidar tirando água do joelho, que Laura não conseguiu terminar o serviço – porque lembrou que o namorado faz o mesmo barulho. Ficou só na mão amiga mesmo. Na hora é bem degradadente e a atriz se debulha em lágrimas e fala um yata yata yata quero ganhar um Emmy yata yata yata, mas quem não daria uma risadinha quando ela fala que ao tocar no “vocabulário” do cara era como se estivesse tocando for the first time – se joga Madonna.

O paciente da terça é Alex, um piloto de aviões que não gosta de se responsabilizar pelos seus atos e é aquele típico homem presunçoso que acaba se quebrando e chorando até o fim da série. Só que no meio da conversa ele menciona um amigo gay, parceiro de corridas, e ai todo mundo presente já acha que o negão gosta de pegar num manche.

A série é cativante porque você não nota o tempo passar mesmo sem a utilização de outros recursos narrativos – aqui tudo depende do roteiro e da atuação dos atores. Os dois primeiros pacientes conseguem manter atuações consistentes, e as mudanças no ângulo da câmera são rápidas e precisas. A entrada e música da série também se encaixam perfeitamente. Mas será que alguém vai agüentar essas pessoas falando dos seus problemas por quarenta e poucos dias sem encher o saco? Vai ter uma hora que até o Paul mesmo vai falar “Cala boca e senta aqui no meu divã, vai?”.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Machismo de ferro


Dois amigos (na verdade um amigo e um amigo do amigo), algumas barras de chocolate e a perspectiva de que nos divertiríamos com o primeiro filme do Homem de Ferro – que já tem contrato para mais dois. Antes de entrar na sala fiz o pequeno somali esfomeado e comi um sanduíche de 30 centímetros na Subway – porque 15cm nunca é o suficiente. Saciado, estufado, fui quase rolando para a fila.

A essa altura todo mundo deve ter ouvido horrores sobre o filme – que é legal, que é divertido, que o Robert Downey Jr. está até gatinho, que a armadura do super-herói está “irada”, e bla bla bla. E o filme realmente é muito divertido. Agrada mesmo porque o Downey foi feito para o personagem – ou vice versa – com seu histórico de situações constrangedoras publicamente conhecidas, como abuso de drogas e bebidas e todo aquela fama bagaceira que as celebridades hoje em dia adoram ter. Ele interpreta o megalomaníaco, mulherengo, autoconfiante, arrogante empresário da indústria armamentista Tony Stark. Ele acaba envolvido em um atentado no Oriente Médio em que terroristas usam as armas que ele próprio produz. E aí já sabe, né? Nada como estilhaços de míssil no peito para despertar o lado altruísta e filantrópico de alguém. O playboyzinho fica revoltado, entra em crise no melhor estilo “Oh meu Deus! O que estive fazendo todo esse tempo?” e faz o que toda pessoa numa situação similar faria...

Doa toda sua fortuna para instituições de caridade? Troca seu conglomerado armamentista por fábricas de rações para os milhões de famintos e desnutridos na África? Não. Ele usa seu intelecto superavantajado para criar uma armadura cheia de armas e passa a fazer justiça com as próprias mãos!

O filme é bem divertido, com as piadas gravitando em volta do comportamento de Stark que dá vida ao Homem de Ferro – ênfase no “homem”. Porque uma coisa que deve se notar é que o longa além de divertido também é uma grande apologia ao machismo! Stark não passa de um carinha nos seus trinta anos em grande crise, que em vez de gastar seu dinheiro com televisões de plasma, carros esportes e mulheres mais jovens – coisas que ele já tem de sobra e não passam de extensões de seu p... Ego e masculinidade – ele decide se divertir com uma arma de destruição em massa na forma de uma armadura espalhafatosa.

Além das atitudes do próprio Tony Stark e de alguns muitos personagens masculinos do filme, temos a presença das mulheres que só reforçam toda vibe macho man do filme. Esqueçam a revolução feminista, os sutiãs em chamas! No filme, as aeromoças do jatinho particular de Stark viram stripers profissionais com direito a pole surgindo no meio da aeronave. E o que dizer da jornalista Chistine Everhart, que chega toda-toda criticando as ações de Stark para depois cair na cama dele? Pura demonstração de profissionalismo.

Mas quem ganha mesmo é a queridinha do filme Pepper Potts, interpretada pela Gwyneth Paltrow. A ruivinha primeiro tem cara de palerma maior parte do filme, faz tudo pro Stark – traz café, roupa lavada, dispensa as “minas” que ele comeu – e ainda acaba caidinha por ele. A cena épica da falta de amor próprio de Potts é quando ela se encontra em cena romântica com o patrão – usando um vestido que deixava visível a falta de comissão de frente da senhorita Paltrow – e se atira para um beijo silenciosamente desesperado e Tony Stark simplesmente sai deixando a moça lá. O resto do filme ela grita, corre e se ajuda o Homem de Ferro em alguma coisa é muito pouco.


Não faço esses comentários com aquele tom de discurso e toda aquela baboseira politicamente correta... Mas o slogan do filme poderia muito bem ser “boys and their toys”. O final é bem conciso e o filme já um grande sucesso de bilheteria. Eu me diverti não só com ele mas com o amigo do amigo que tinha uma risada bastante peculiar e espontânea – entendam como extremamente constrangedora – e que com o número de piadas no filme dá pra imaginar o que acompanhou a trilha sonora. Sem falar nas pessoas que começaram a prevê-la e a imitá-la com antecedência. Comédia na tela e na platéia também.

P.S. Who the hell dá o nome da filha de Pepper Potts? E se é um apelido, que porra significa? Pimenta Maconhas? (cretina essa)