
Eu não gostaria de acordar um dia e descobrir que estou preso. Ninguém gostaria, acho. Mas o termo preso é bem vago, imaginando as inúmeras possibilidades de prisões que podem surgir um dia roubando nossa liberdade.
Tudo começou com um livro e depois com um filme. Um filme do livro, como sempre acontece nesses casos e equações em que o escrito leva ao visto.
Acabei por todas essas operações estranhas em uma sala de cinema assistindo à história de um homem que ficou completamente paralisado, exceto por um dos seus olhos, o esquerdo. Ele estava preso, como ele mesmo descreve, em um escafandro.
Eu deveria imaginar, depois de ler as páginas possíveis apenas pelo esforço do seu único olho funcional, que acabaria chorando no ombro de um interesse amoroso enquanto assistia a cada uma das angustiantes cenas.
Jean-Dominique Bauby era jornalista e editor da Elle francesa, até um derrame tirar todos os seus movimentos e torná-lo um pouco mais que um legume, como caracterizavam algumas pessoas que souberam da sua condição logo depois do incidente.
Um derrame sem causa comprovada, o que sempre nos leva a pensar: o que impediria isso de acontecer comigo? Mais motivo para chorar copiosamente enquanto Bauby observa seus filhos negligenciados sem poder acariciar seus cabelos ou beijar seus rostos.
O filme O Escafandro e a Borboleta é um desses filmes que consegue elevar o emocional de um livro. Lendo sua versão pelas mãos – ou olho – de Bauby, você consegue claramente notar uma história do tipo "superação humana", mas o longa transporta para o mundo angustiantemente impotente do autor. A câmera estática, ângulos que imitam a posição de Bauby, lentes embaçadas quando ele começa a lacrimejar.
Bauby só suporta toda a sua prisão através das borboletas de sua vida: sua memória e sua imaginação. Assim pode adejar fora de seu escafandro e viver tudo que lhe é privado.
Uma trilha sonora impecável, com músicas que eu realmente não conheço, mas que por um momento gostaria de conhecer. De ouvir tudo de novo e poder chorar mais um pouquinho. Só que dessa vez sozinho. Acompanhado de alguém que acaricia sua mão com as pontas dos dedos, as lágrimas acabam parando tímidas nas beiras dos olhos. Um choque entre uma felicidade íntima e a tristeza de outrem tão distante.
Corta para um ônibus. "Eu gostei bastante do livro", digo. "Ele escreve muito bem. Algumas pessoas devem se sentir impelidas a ler o livro por pena, mas ele realmente escreve muito bem". Recebo em troca: "Tenho medo de ler livros que não pelos seus atributos literários".
Com certeza o livro tem grandes atributos literários. E a história, atributos fantasticamente humanos e comoventes.
Nessa noite, aproveitei o toque desse interesse amoroso enquanto pude.
